Escalas de desempenho funcional traduzem em número a capacidade de uma pessoa realizar suas atividades — e, em cuidados paliativos, orientam decisões sobre elegibilidade a tratamentos, intensidade de suporte e momento de rever objetivos de cuidado. As duas mais usadas no Brasil são a ECOG (0 a 5, quanto maior pior) e a Karnofsky (100 a 0, quanto menor pior). Abaixo você encontra as duas escalas completas, com conversão entre elas, e uma explicação de quando cada instrumento é apropriado.
Uma advertência antes de começar: escala funcional mede estado atual, não prognóstico individual. Ela informa a conversa clínica — não a substitui, e não deve ser usada isoladamente para decidir sobre tratamento.
ECOG Performance Status
Desenvolvida pelo Eastern Cooperative Oncology Group e publicada por Oken e colaboradores em 1982, a ECOG é a escala mais usada em oncologia e em ensaios clínicos. Tem seis graus e é rápida de aplicar.
| Grau | Descrição |
|---|---|
| 0 | Totalmente ativo; capaz de manter todas as atividades que exercia antes da doença, sem restrição. |
| 1 | Restrição a atividades físicas extenuantes, mas deambula e é capaz de realizar trabalho leve ou de natureza sedentária — tarefas domésticas leves, trabalho de escritório. |
| 2 | Deambula e é capaz de todo o autocuidado, mas incapaz de exercer qualquer atividade de trabalho. Fora do leito mais de 50% das horas em que está acordado. |
| 3 | Capaz de apenas autocuidado limitado. Confinado ao leito ou à cadeira mais de 50% das horas em que está acordado. |
| 4 | Completamente incapaz. Não realiza nenhum autocuidado. Totalmente confinado ao leito ou à cadeira. |
| 5 | Morte. |
Tradução para o português a partir do texto oficial do ECOG-ACRIN Cancer Research Group. Citação original: Oken MM, Creech RH, Tormey DC, Horton J, Davis TE, McFadden ET, Carbone PP. Toxicity and response criteria of the Eastern Cooperative Oncology Group. Am J Clin Oncol. 1982;5(6):649-655. PMID 7165009.
Escala de Karnofsky (KPS)
Publicada por Karnofsky e Burchenal em 1949, é a escala funcional mais antiga em uso. Vai de 100 a 0, em intervalos de 10, e oferece granularidade maior que a ECOG — o que a torna útil quando se quer acompanhar variações menores ao longo do tempo.
| KPS | Descrição | Categoria |
|---|---|---|
| 100 | Normal; sem queixas; sem evidência de doença. | Atividade normal; sem necessidade de cuidado especial |
| 90 | Capaz de manter atividade normal; sinais ou sintomas menores da doença. | |
| 80 | Atividade normal com esforço; alguns sinais ou sintomas da doença. | |
| 70 | Cuida de si; incapaz de manter atividade normal ou de trabalhar ativamente. | Incapaz de trabalhar; vive em casa; precisa de assistência variável |
| 60 | Requer assistência ocasional, mas é capaz de atender à maior parte das próprias necessidades. | |
| 50 | Requer assistência considerável e cuidados médicos frequentes. | |
| 40 | Incapacitado; requer cuidado e assistência especiais. | Incapaz de cuidar de si; progressão rápida da doença |
| 30 | Gravemente incapacitado; internação indicada, ainda que a morte não seja iminente. | |
| 20 | Muito doente; internação necessária; tratamento de suporte ativo necessário. | |
| 10 | Moribundo; processos fatais progredindo rapidamente. | |
| 0 | Morte. |
Karnofsky DA, Burchenal JH. The clinical evaluation of chemotherapeutic agents in cancer. In: MacLeod CM, ed. Evaluation of Chemotherapeutic Agents. Columbia University Press; 1949:191-205.
Como converter ECOG em Karnofsky
A correspondência entre as duas escalas é aproximada, não exata — elas medem construtos semelhantes com granularidades diferentes. A equivalência mais usada na literatura é esta:
| ECOG | Karnofsky | Leitura clínica |
|---|---|---|
| 0 | 100 – 90 | Sem limitação funcional |
| 1 | 80 – 70 | Limitação para esforço; autonomia preservada |
| 2 | 60 – 50 | Autocuidado preservado; sem capacidade laboral |
| 3 | 40 – 30 | Autocuidado limitado; maior parte do tempo no leito ou cadeira |
| 4 | 20 – 10 | Dependência total |
| 5 | 0 | Morte |
Por que ECOG 2 costuma ser um ponto de virada
Em oncologia, ECOG 0 e 1 são os graus em que a maioria dos ensaios clínicos aceita participantes e em que quimioterapia sistêmica costuma ser tolerada. A partir de ECOG 3, o balanço entre benefício e toxicidade tende a se inverter para muitos tratamentos antineoplásicos.
ECOG 2 é a zona cinzenta — e é justamente onde a avaliação por equipe de cuidados paliativos costuma acrescentar mais. Não porque o tratamento deva parar, mas porque é o momento em que controle de sintomas, suporte funcional e conversa sobre objetivos de cuidado passam a determinar tanto o resultado quanto a terapia da doença de base.
Outros instrumentos usados em cuidados paliativos
Além das escalas funcionais, a prática paliativa usa instrumentos de rastreamento de necessidade e de avaliação de sintomas. Os principais são protegidos por direito autoral e têm condições próprias de uso — abaixo estão a descrição de cada um e o link para a fonte oficial, que é onde a versão válida e autorizada deve ser obtida.
PPS — Palliative Performance Scale (PPSv2)
Adaptação da Karnofsky específica para cuidados paliativos, criada pelo Victoria Hospice. Avalia cinco domínios simultaneamente — deambulação, atividade e evidência de doença, autocuidado, ingesta e nível de consciência — em níveis de 100% a 0%. É a escala funcional mais usada em serviços de cuidados paliativos por capturar dimensões que a Karnofsky não separa. A PPSv2 é obra protegida do Victoria Hospice Society; o uso requer observar as condições de licenciamento da instituição.
Victoria Hospice — ferramentas clínicas oficiais
SPICT — Supportive and Palliative Care Indicators Tool
Instrumento de rastreamento para identificar pessoas com risco de deterioração e necessidade de cuidados paliativos, combinando indicadores gerais de declínio com indicadores clínicos específicos por condição. Existe versão validada para o português do Brasil (SPICT-BR). Desenvolvido pela Universidade de Edimburgo e distribuído sob licença Creative Commons que não permite modificação.
ESAS-r — Edmonton Symptom Assessment System revised
Autoavaliação de nove sintomas em escala numérica de 0 a 10 — dor, cansaço, sonolência, náusea, apetite, falta de ar, depressão, ansiedade e bem-estar. É o instrumento padrão para acompanhar intensidade de sintomas ao longo do tempo.
Alberta Health Services — ESAS-r
NECPAL CCOMS-ICO
Instrumento de identificação precoce de necessidade paliativa em população geral, construído a partir da pergunta-surpresa combinada a indicadores de gravidade e progressão. Desenvolvido pelo Institut Català d’Oncologia.
A pergunta-surpresa
O rastreamento mais simples que existe cabe em uma frase, e a equipe faz a si mesma: “Eu ficaria surpreso se esta pessoa morresse nos próximos 12 meses?”
Se a resposta for “não ficaria surpreso”, há indicação de avaliar necessidade de cuidados paliativos e iniciar planejamento antecipado de cuidados. A pergunta tem sensibilidade limitada como preditor isolado de mortalidade, mas funciona bem como gatilho de atenção — que é o seu propósito.
Perguntas frequentes
Escala funcional serve para estimar quanto tempo de vida resta?
Não como número individual. Escalas funcionais têm associação estatística com sobrevida em grupos de pacientes, mas não permitem prever o tempo de vida de uma pessoa específica. Usá-las assim produz estimativas que erram com frequência, em ambas as direções.
Qual escala devo usar: ECOG ou Karnofsky?
ECOG é mais rápida e é o padrão em oncologia e em ensaios clínicos. Karnofsky tem granularidade maior e detecta variações menores, o que ajuda no acompanhamento longitudinal. Em serviços de cuidados paliativos, a PPS costuma ser preferida por avaliar cinco domínios de uma vez.
Preciso de escala baixa para ser encaminhado a cuidados paliativos?
Não. O critério de encaminhamento é necessidade — sintomas mal controlados, sofrimento, complexidade de decisão, sobrecarga do cuidador — e não um valor de escala. A Lei nº 15.378/2026 assegura o direito a cuidados paliativos sem estabelecer nenhum valor de escala nem expectativa de vida como condição de acesso.
Quem pode aplicar essas escalas?
ECOG e Karnofsky são aplicadas por profissionais de saúde a partir da observação clínica e da história. A ESAS-r é diferente: é autoavaliação, respondida pelo próprio paciente sempre que ele tiver condições de fazê-lo.
Fontes consultadas
- ECOG-ACRIN Cancer Research Group — ECOG Performance Status
- Oken MM et al. Toxicity and response criteria of the Eastern Cooperative Oncology Group. Am J Clin Oncol. 1982 (PMID 7165009)
- Victoria Hospice — Palliative Performance Scale (PPSv2)
- SPICT — Supportive and Palliative Care Indicators Tool
- Alberta Health Services — Edmonton Symptom Assessment System revised (ESAS-r)
- Lei nº 15.378, de 6 de abril de 2026 — Estatuto dos Direitos do Paciente