A dor é um dos sintomas mais temidos e mais comuns em pacientes com doenças avançadas. Entre 60% e 90% das pessoas em cuidados paliativos convivem com algum grau de dor — e a boa notícia é que, em grande parte dos casos, ela pode e deve ser controlada.
Princípios do controle da dor
A Organização Mundial da Saúde propõe cinco princípios básicos, que continuam válidos depois de décadas:
- Pela boca — sempre que possível, preferir a via oral.
- Pelo relógio — horários fixos, não apenas “se necessário”, para manter nível plasmático estável.
- Pela escada — progressão gradual conforme intensidade.
- Para o indivíduo — doses ajustadas caso a caso.
- Com atenção aos detalhes — reavaliar sempre.
A escada analgésica da OMS
A escada propõe três degraus, de acordo com a intensidade da dor:
1º degrau — dor leve
Analgésicos não opioides: paracetamol, dipirona e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Podem ser associados a adjuvantes como anticonvulsivantes ou antidepressivos.
2º degrau — dor moderada
Opioides fracos: codeína, tramadol. Geralmente associados aos do 1º degrau.
3º degrau — dor intensa
Opioides fortes: morfina, oxicodona, metadona, fentanil. Usados com segurança quando prescritos e titulados corretamente.
O medo da morfina mata mais do que a morfina. Quando usada corretamente, ela é segura e transformadora.
Tipos de dor e abordagens
- Dor nociceptiva (somática/visceral) — responde bem a opioides e anti-inflamatórios.
- Dor neuropática (nervo lesionado) — requer adjuvantes como gabapentina, pregabalina ou amitriptilina.
- Dor mista — combinação das anteriores, muito comum em câncer avançado.
- Dor total — conceito de Cicely Saunders que integra sofrimento físico, emocional, social e espiritual.
Estratégias não farmacológicas
O cuidado integral envolve recursos além do remédio:
- Calor e frio local
- Massagem e fisioterapia
- Acupuntura
- Mindfulness e técnicas de respiração
- Musicoterapia
- Psicoterapia de suporte
- Cuidado espiritual
Reavaliação constante
A intensidade, a qualidade e as circunstâncias da dor mudam. Por isso, é essencial reavaliar sempre usando escalas como a EVA (Escala Visual Analógica) ou a escala numérica de 0 a 10, e ajustar o plano terapêutico.
Controlar a dor não é apenas tratar um sintoma — é devolver ao paciente a possibilidade de viver, se relacionar e despedir-se com dignidade.